Está a terminar mais uma época desportiva e o futebol continua a ser aquela
modalidade mágica que mexe com as emoções de milhões de pessoas por todo o
mundo! Quer se goste ou não, não há como negar o poder que o resultado de um jogo
ao fim de semana tem no decorrer dos dias seguintes.
Será que dá para explicar a paixão que o clubismo desperta? E quem são esses
“loucos” que vivem as emoções de um jogo de futebol? Chamem-me o que quiserem,
mas eu sou aquela que a esta altura do ano, já sente falta dos jogos ao fim de
semana!
COMO NASCE A PAIXÃO
Tinha quatro anos quando fui apresentada à magia de uma tarde de futebol. Na altura
era quase sempre aos domingos depois da hora do almoço e ia toda a família! As
mulheres iam para as compras enquanto os homens e filhos, masculino, iam “à bola”!
Importa recuar no tempo para contextualizar o meu caso… reza a lenda que durante a
minha gestação, o meu rico pai alimentou o sonho de eu ser um rapaz companheiro
de aventuras! Afinal quando eu nasci, ficou claro que era mais uma menina…pesa, no
entanto que sempre fui uma menina daquelas que se apelidava de “Maria rapaz”, ou
seja, mal o menos eu gostava de acompanhar o meu pai em todas as suas atividades.
Assim, não foi difícil passar-me o bichinho da paixão clubista!
De almofada debaixo do braço, bandeirinha numa mão e farnel para o lanche (que na
altura podia entrar no estádio) na outra, lá ia eu toda orgulhosa de pertencer a este
mundo que era dos crescidos e naquela altura, quase exclusivamente masculino!
Foram tempos gloriosos aqueles em que nem me interessava quem era o adversário
porque o Benfica ganhava sempre, (sim, eu sou do Benfica!), e que aprendi a ver o
desporto rei. E percebe-se rápido que ver futebol não é como assistir a um filme, é
preciso saber ver!
ÍDOLOS DA BOLA
O meu primeiro ídolo foi, é e será sempre um dos melhores jogadores que vi jogar ao
vivo, Fernando Albino Sousa Chalana! Jogador de caraterísticas únicas, o seu metro e
sessenta e cinco fazia coisas impressionante que lhe valeram a alcunha de “ pequeno
genial”.
Mas para mim o Chalanix, também assim chamado, era a personificação do que um
jogador deve ter, qualidade técnica acima da média, driblava como ninguém! Até hoje
se conta em jantares lá em casa as vezes que eu gritava das bancadas “Chalana és
pequenino, mas és bom”!!! Quem diria que anos mais tarde iria privar com este génio
que tinha tanto de bom jogador como de boa pessoa! Saudades…
Depois dele recordo muitos outros…vi jogar craques com pés de sonho, capacidade
de explosão, criatividade de outro mundo, privilegiada visão de jogo, capacidade
defensiva de dar confiança a qualquer um, jogadores que tornaram os meus dias mais
felizes e felizmente foram tantos que nem consigo nomear…
Foram figuras assim que foram despertando e fazendo crescer em mim a paixão pelo
clube e pela modalidade desportiva…
PAIXÃO QUE NÃO SE EXPLICA
Há quem o compare a uma religião, loucura, falta de cultura, enfim tudo se diz sobre a
paixão que move os milhares que em romaria se deslocam aos estádios… pois eu
acho que não se explica, só se sente e pronto! Para quê explicar o que está acima do
racional!
Como explicar por palavras que, se ao meu lado na bancada estiver aquele senhor
mal-educado e insuportável que passou à minha frente na fila do supermercado, se o
Benfica marcar golo eu vou abraçá-lo como se fosse família?
Como posso justificar que sou capaz de conduzir quilómetros depois de um dia
intenso de trabalho para estar a sofrer noventa minutos? Já sem falar dos milhares de
lágrimas que já derramei ao assistir aos jogos…. Pois, não consigo…
E para os intelectuais que tantas vezes criticam os “acéfalos” que sofrem com “aquilo
do futebol”, devo dizer que também me emociono no cinema, no teatro, em concertos
de música ou até a ler um livro…Simplesmente aqui encontro tantos como eu, ali ao
meu lado, a sentirem o mesmo que eu!
Calma pessoal o coração dá para tudo! E devo dizer que a mim parece-me mais
ignorante não querer entender o que os adeptos do futebol sentem! Experimentem ir
assistir ao vivo a um dérbi, um clássico, e deixem-se levar pela envolvência, e claro
que não me refiro só às tradicionais sandes de courato e minis (duas coisas que nem
consumo by the way)!
NA BANCADA HÁ LUGAR PARA TODOS
Olhe-se para o futebol com olhos de ver…numa bancada de futebol cabem todos! Não
há raças nem credos, não há cores nem géneros, há ricos e pobres! Haverá maior
prova de inteligência do que esta? Haverá cenário mais inclusivo?
E não me venham com a conversa da violência porque isso não faz parte de nada
nem de coisa nenhuma! Não é exclusivo do futebol! Infelizmente são ações de grupo
de imbecis que se aproveitam da beleza do jogo para justificar a própria estupidez…
Há também outro fator que me faz amar tanto o futebol…com o passar dos anos os
campos têm-se pintado de cor-de-rosa! Ao contrário de outras áreas sociais, as
mulheres galgaram muito terreno neste jogo!
Ainda me lembro, e não foi assim há tantos anos, em que os meus colegas de
faculdade, a grande maioria das minhas cores clubistas, ficavam admirados por eu
participar assiduamente nas tertúlias sobre o domingo desportivo! Eu ia aos treinos, na
altura eram num campo em frente à porta principal do estádio, acompanhava-os aos
jogos, gritava tanto como eles, mas muitas vezes, quase todas, era a única mulher!
Hoje, é só olhar à volta e ver com alegria que esse número subiu para uma
percentagem considerável dos que assistem e seguem a vida dos clubes! E mais… e
melhor… é que agora elas não vão “só para ver as pernas dos jogadores ou armadas
em Marias chuteiras para arranjar marido”! Agora as mulheres sabem ver, comentar e
viver o futebol. Não vieram para decorar as bancadas, mas para enriquecer e trazer
uma sabedoria tão própria do género feminino dentro e fora das quatro linhas.
Aliás, e puxando a brasa à minha sardinha, o Benfica ajudou muito nesse caminho,
criando condições a que o futebol no feminino seja já uma potência em crescimento.
Quando vão chegar ao patamar masculino no campo financeiro? Talvez nunca, mas
isso já são outros quinhentos, e Roma e Pavia não se fizeram num só dia! As
mulheres já mostraram ao longo de toda a vida que quando querem são capazes de
tudo e por isso eu acredito que um dia, vão lá chegar e ser reconhecidas pelo mérito
que têm, também no futebol!
E eu… eu estarei lá enquanto o corpo me permitir para aplaudir, gritar, chorar e sorrir,
porque apesar do futebol de hoje ser já tão diferente daquele pelo qual me apaixonei
lá atrás aos quatro anos, o meu Benfica será sempre o meu Benfica!
NOTA DE RODAPÉ
Agradeço ao meu pai ter-me apresentado esta paixão que se tornou também num
mundo nosso!
Até ao próximo artigo,
Carina Bento – jornalista


