Mudar de vida nunca é só mudar de casa.
É mexer em tudo: rotinas, relações e até na forma como vemos o mundo.
Esta é a história de quem teve coragem de o fazer aos 50.
A decisão
Nunca é tarde para mudar… Custa, assusta, exige ponderação e muitas noites de sono deitadas ao lixo, mas uma vez tomada a decisão é de avançar sem olhar para trás!
Foi assim que eu deixei o que conheci toda a minha vida por uma realidade desconhecida…
Pode parecer que falo de um caso de vida ou morte mas foi “apenas” uma mudança de morada!
Troquei Oeiras onde sempre quis viver pelo Cadaval, a última vila na fronteira do distrito de Lisboa!
Quase aos 50 anos de idade, resolvi que estava na hora de fugir à confusão da cidade… Lisboa é linda, é casa, mas está estranha, sem empatia sem muito amor… e os últimos tempos mostraram-me muito isso.
Entre a cidade e o campo
Sou fã de praia mas sempre apreciei a calmaria do campo… o “olá vizinha” na porta ao lado, o calor seco das ervas, a gastronomia de ingredientes frescos e criar o meu filho num local onde os perigos espreitam tanto como as pessoas da terra que conhecem todos e observam tudo, fez-me repensar a vida.
A juntar a isso os dois anos pesados que vivi com um burnout (tema para outro depoimento), mostraram-me que o meu caminho tinha de fazer uma curva apertada com saída noutra estrada.
E porque nada acontece por acaso, viemos aqui parar atrás de uma casa que encontrámos na net e achámos o máximo. Não foi essa que comprámos mas a nossa nova casa é também um casão (grande até demais se é que alguém me entende), com um ar senhorial e cheia de potencial!
O que nos fez ficar
Mas a decisão começou a nascer não só por podermos ter finalmente uma casa com espaço para enfiar todos os meus livros e tarecos sem tropeçar neles, mas porque ao longo do processo de procura, fomos encontrando pessoas de peito aberto que nos foram abrindo os olhos para o que podíamos ter e viver a 50 minutos de Lisboa.
Esse foi o grande encanto da terra!
Claro que comprar aqui uma casa que em Lisboa iria custar dez vezes mais é atraente, mesmo porque procurámos muito por lá e os preços que apresentam estão completamente fora de qualquer realidade média.
Mas foi a delicadeza, simpatia e vontade de receber que nos cativou. Desde a menina que nos atendeu na Telha (restaurante mais conhecido da terra), até à senhora da farmácia onde pedimos informações, passando pela ex-dona da nossa casa, todos nos gritavam que tínhamos de vir tentar!
E na verdade só a família e amigos nos prendiam lá e esses estão sempre onde nós estivermos, não é?
A realidade (sem filtros)
Estamos cá há 8 meses! O Sebastião completamente adaptado, foi aceite como “um da malta”, e nós os crescidos, já vamos socializando até mais que em Oeiras!
Se é tudo bom? Não! Claro que não… os meios pequenos trazem consigo a coscuvilhice, o marasmo, a passividade que nem todos os dias apetece… e o pior… ainda se respira muito o patriarcado, o machismo, e as pessoas acham mesmo que devem opinar sobre a vida dos outros!
Mas uma coisa é garantida, se alguém precisar de uma ajuda a meio da noite (e nós já precisámos), são mais os que estendem a mão dos que assobiam para o lado!
E isso faz tudo valer a pena! Pelo menos para já, em que somos ainda “os novos” com ideias fora da caixa, que não vêm mudar o mundo mas que só querem saber andar nisto!
E afinal… valeu a pena?
E que viagem tem sido esta! Uma descoberta de tanta coisa que parecendo igual é tão diferente da vida da mulher da cidade que conheci até aqui!
E by the way, importa referir que a minha casa continua em Oeiras, alugada, just in case! Porque a vida não é certa e vai que um dia destes decido voltar!!!
Até à próxima — porque a vida continua a acontecer.
Cadavalices by Carina Bento (jornalista)


